O SACI E O ASTRONAUTA
Por Maurício Louro
O SACI E O ASTRONAUTA
A roça ainda é a roça. Ficamos tão entretidos com as coisas do dia, com as notícias na tevê, com as tecnologias, que esquecemos daquela outra vida, tão próxima de nós. Assim como é o meu caso, há ainda muitos filhos de pais criados na roça, no interior. Pais que vieram para as cidades e aqui formaram família.
Minha mãe sempre conta histórias da infância. Coisas que aconteceram com ela e que não lhe saem da memória, como a vez em que se deparou com um saci. Experimente dizer para ela que o moleque de uma perna só e de cachimbinho não existe! Experimente!
São histórias fantásticas e que bem sabemos irreais. Mas apenas para nós, urbanos. Lá, na roça, elas aconteceram e acontecem mesmo. Assim como um fanático religioso passei a acreditar. E não acreditaria por quê? Vemos coisas muito mais inacreditáveis nas cidades. Prefiro o saci ao astronauta brasileiro.
Poucos dias se passaram e quase não se fala mais no assunto. Pesquisei na internet, mantive-me atento ao noticiário e acompanhei sempre que pude as entrevistas e aparições do Coronel Marcos Pontes, primeiro brasileiro a entrar em órbita literalmente. Parece que me falta alguma coisa, pois ainda não consegui captar a utilidade para nós que representamos o resto do Brasil.
Compreendo a importância de se explorar o espaço, mas me sinto explorado. Mandar o sujeito lá pra cima foi caríssimo – US$ 10 milhões -, sendo que o dinheiro foi desembolsado pelo governo brasileiro, ou melhor, por nós contribuintes.
É provinciano achar que precisamos de ações desse tipo. Não somos os EUA ou a Rússia. Não somos a China. Sequer somos o Irã. Nem tampouco nos perguntaram se queremos ser isso que estão querendo que sejamos. Não temos condições de ajudar o Haiti, mesmo que isso signifique perda de status internacional.
Acredito que o tenente-coronel Marcos Pontes tenha realizado um sonho de sua vida, e acho isso fantástico. Será perfeita a vida no dia em que todos realizarmos nossos sonhos, sem uso do dinheiro alheio, é claro.
Não acredito num projeto que leve um brasileiro ao espaço. Não acredito que esse brasileiro tenha levado uma réplica do chapéu de Santos Dumont; que ele tenha plantado feijão por lá; que tenha tentado jogar futebol sem gravidade. Prefiro acreditar no saci.
Escrito por Maurício Louro às 20h48
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FESTA NO APÊ
Por Maurício Louro
As pessoas tem manias, algumas bem estranhas. São cismas, coisas que parecem bobagens, mas que não o são para os cismados. Eu detesto a palavra “bundalelê”. Não sei o motivo, mas simplesmente não gosto da palavra. Quando vi na tevê o Latino dançando feito um sapo cantando ...”vai rolar bundalelê...” pensei: “pronto, perdi de novo”.
Perdi porque preciso me desligar de uma certa ranhetice com esse tipo de coisa. Já fui muito crítico em relação ao que as rádios tocam, ao que aparece na televisão, àquilo que chamam de sucesso. Hoje não sou mais, embora às vezes sinta alguns resquícios. Parei de dar valor genérico à criação musical.
As coisas estão sendo produzidas sem parar. Não posso ignorá-las. Em se tratando de música, não existe a boa ou a ruim, mas aquela com a qual, de alguma forma, nos identificamos. Tento me manter sóbrio desde uma noite em que não conseguia dormir por causa de um refrão que me vinha toda hora à cabeça: ...“a mina de féééé, a mina de féééé”. Faço parte do mundo, portanto, preciso ouvir bundalelê. Que mal há nisso?
Ver de tudo um pouco é ótimo. Divirto-me em alguns momentos, como aconteceu durante uma entrevista do Alexandre Frota no programa da Luciana Gimenez, na Rede TV! O programa tenta criar polêmica com bobagens como um beijo que o ator teria dado na Miss Brasil Gay, Renata Finsk. No transcorrer da entrevista, Gimenez ouve a opinião de alguém da platéia, que fica instalada numa cadeira em destaque.
A apresentadora fez uma pergunta bombástica a Frota, insinuando que a tal relação do ator teria ido além de um beijo, conforme afirmara o transexual no programa do dia anterior. Antes de ouvir a resposta, para causar ainda mais reboliço, Luciana interpelou a pessoa da platéia, uma jovem, a respeito do que ela achava sobre o que disse Renata Finsk no último programa?
A menina da platéia, meio sem graça, disse: “eu não vi programa não, Luciana”... Seguiu-se um certo silêncio até que Alexandre Frota fosse novamente alvo das perguntas da apresentadora. Esse tipo de bundalelê me diverte.
Escrito por Maurício Louro às 13h32
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O BOI VAI ATRÁS
Por Maurício Louro
O filme “Os dois filhos de Francisco” conta não só a história daquela família. Ali está também parte da história do rádio, e mais um pouco. Bem antes de “seu” Francisco ser pai, o veículo vinha fazendo história de histórias. Foi o primeiro veículo a penetrar nos lares, na intimidade das pessoas. De tanto poder, acabou incorporado por governos, e virou questão de segurança nacional. O rádio formou o Brasil do século XX. E parou por aí.
Desde o surgimento da televisão, as mudanças significativas ocorrida no meio rádio limitaram-se à linguagem. Concorrer com um veículo que dispunha da imagem, além do som, não seria fácil. Para piorar, sempre que o rádio reformulava sua comunicação a televisão ia lá e capturava o formato e o adaptava. Capturava também os profissionais do rádio. A última grande mudança ocorreu no fim da década de 1970, com as transmissões em frequência modulada. Uma última reformulação na linguagem ocorreu no mesmo período.
A partir daí os papéis se inverteram efetivamente, e o rádio passou a seguir de perto a televisão. E foi perdendo espaço até chegar ao que é hoje. Ficou tão relegado que acabou virando uma espécie de lenda. Seria melhor se tivesse sido esquecido, pois continua sofrendo com a concorrência desleal de outros meios, amarrado que está pela legislação vigente. Agora, fala-se em nova revolução, que viria com o sistema digital.
Estamos desinformados a respeito da digitalização do meio rádio. Discute-se por aí a implantação do sistema americano (IBOC), e não há nada confirmado a respeito. Aliás, ao que parece, esse sistema dificilmente será implantado no Brasil. A preferência de Hélio Costa recai sobre o que é utilizado no Japão, ficando em segundo lugar o europeu.
Vejo, no entanto, que o problema parece ser outro. Quando o ministro fala em digitalização, refere-se sempre à tevê. O rádio se limitará a seguir o sistema que for escolhido, o qual será aquele que melhor servir à tevê. É por isso que precisamos dar um pontapé inicial para tentar mudar a legislação no que tange ao rádio. O rádio precisa entender que não há como disputar mercado publicitário com meios como a tevê...
É feudal o privilégio que o Governo dá a políticos e empresários para a exploração de serviços de utilidade pública ou particular, ou seja, a concessão. Infelizmente isto serve como ferramenta de barganha, o que é fato e faz parte da rotina de qualquer país. No entanto, o poder de influência do rádio não é mais aquele de décadas e décadas atrás. Rádio, hoje, não dá retorno a investimentos volumosos. O meio não permite isso.
As fatias expressivas de investimento do mercado publicitário vão para outros veículos, sobretudo às tevês. Daí o discurso centrado do Ministro. A solução para o rádio está em ser o mais democrático dos veículos, atendendo a todos em qualquer lugar, como foi com “seu” Francisco. Rádio é para radialista.
Escrito por Maurício Louro às 13h38
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O BRASIL TEK PIK
Por Maurício Louro
Num vilarejo miserável do Nordeste, uma família deixava de receber cerca de R$ 30 do Bolsa Família. O dinheiro serviria para manter a caçula na escola, condição fundamental para o cadastramento no programa do governo. No entanto, só depois que o assunto virou matéria do Jornal Nacional o dinheiro chegou ao destino. Por ignorância, a mãe da menina não havia se dirigido à agência da Caixa Econômica para ter o valor liberado. A menina não tinha sequer um par de havaianas para ir à escola.
Por outro lado, na parte mais rica da cidade, uma outra família recebia regularmente o benefício. O pai, que já havia sido vereador, conhecia bem os trâmites e arranjou uma forma de inscrever seu filho adolescente no programa. Assim, apesar de ter carro na garagem de sua casa própria, a tal família recebia mensalmente R$ 30. Isso foi mostrado na mesma matéria, no Jornal Nacional.
Num comercial de televisão, o cidadão de uma típica cidadezinha latino-americana ficou obcecado com a imagem de um Peugeot, estampada numa parede suja. De tão impressionado, resolveu modificar, na base da pancada, seu velho automóvel – um daqueles carrinhos dos anos 50, que a gente vê sempre que há alguma imagem de Havana na tevê -, tentando moldá-lo à semelhança do tal Peugeot.
Quando conseguiu fazer uma cópia amassada, de mau gosto, esboçou um sorriso de satisfação e foi para a rua, exibir seu “importado” para as meninas locais. Nem lembro se era mesmo um Peugeot, mas isso não importa.
A tecnologia digital para rádio e tevê está chegando ao Brasil sem que os brasileiros tenham o menor conhecimento do que se trata. Curioso: é o tema atual em debate na área de comunicação. Algumas empresas já fazem transmissões experimentais, pois não há saída para quem almeja estar no topo dos negócios neste setor. Não se pode ficar para trás numa corrida tecnológica, mesmo diante de um mercado consumidor ignorante. Mesmo que não se fabrique aparelhos receptores digitais no país e que os mesmos, importados, tenham um custo em torno de R$ 10 mil (TV) e R$ 2 mil – falando dos mais simples.
As empresas investem preferindo correr riscos, como o matuto que enfia a mão na lama do mangue em busca de caranguejo. Obviamente, o risco para os empresários é mais doloroso. Até porque o matuto já tem os dedos calejados. Um investimento inicial em rádio estaria em torno de US$ 300 mil, o que não seria suficiente para a transmissão digital efetiva. Ainda assim, os receptores certamente serão analógicos por bom tempo, a não ser que se baixem os custos de aquisição.
Mas nem tudo está perdido. Na onda da carestia, surgiu no mercado uma opção para os menos favorecidos – como no caso do Peugeot cubano. Trata-se de um aparelhinho decodificador que, segundo os representantes comerciais, resolveria o problema de quem não tem dinheiro para comprar uma tevê digital de verdade. A engenhoca parece com aquelas caixinhas que ficam sobre a tevê, e servem de conexão com canais fechados. É, na verdade, uma espécie de Tek Pik para quem não pode ter uma câmera digital.
Vivemos num país de longas distâncias: da menina sem sandálias ao carro na garagem; dos R$ 30 do Bolsa Família aos R$ 10 mil da tevê digital; da agricultura produtiva que pede investimentos à tecnologia digital improfícua; do falso Peugeot ao decodificador digital; do Oiapoque ao Xuí.
Escrito por Maurício Louro às 15h56
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É A SALVAÇÃO...
AS NOVAS TECNOLOGIAS E O RÁDIO
Gosto muito de apontar a internet como a tábua de salvação para quem trabalha com música, como nós desse projeto chamado MORRICE. Lembro das dificuldades para gravar pelo menos uma musiquinha num estúdio que, quando tinha oito canais, era o máximo. Hoje não se imagina mais a tal "fita demo". Isso é muito bom, não é?
É claro que ainda não é para qualquer um entrar num bom estúdio para fazer uma gravina com equipamento profissional. Pelo menos ainda não chegamos lá. No entanto, as chamadas gravações caseiras via Sonar ou Cake Walk quebram bem o galho. Sem falar nos Fruit Loops, nos diversos programas de mixagem, etc.
O mais importante, no entanto, é visualizar a mudança que também vem acontecendo em termos de mercado para o músico. O toma-lá-dá-cá das gravadoras com as rádios - os "jabás"-, certamente vai persistir por um tempo, mas acho que a coisa está com os dias contados. E é aí que entra a internet. Aqui no Brasil, segundo estudo realizado pelo IBOPE, nos primeiros nove meses de 2005, o volume de acesso à Web cresceu 10%.
Hoje em dia, pessoas com potencial de consumo estão por aí, na internet. Trabalham, fazem pesquisas, compram coisas e ouvem música. As opções musicais na Web são inúmeras. Encontra-se de tudo, de Toy Dools a Tiririca. De Talking Heads a Candeia. Encontra-se até Axé, Pagode e Sertanejo. Então - aí vem a velha pergunta - por que ouvir rádio?
Agora depende de cada um fazer o melhor uso dessa tecnologia santa, que nos deixa ligado com o mundo inteiro. Em questão de volume de audiência, isso é melhor do que tocar nas rádios. No entanto, essa coisa de enterrar um veículo como o rádio é lamentável. Acho que podemos conversar a respeito, nos próximos textos.
Escrito por Maurício Louro às 20h18
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